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E a certidão atrapalhou o casamento – Peculiaridades da Favela 2

Por Dra. Susana Spencer Bruno

Advogada, professora universitária, Mestre em Direito, sócia fundadora do Escritório Vilas-Bôas & Spencer Bruno Advocacia e Assessoria Jurídica

Na favela da Babilônia, realizávamos atendimento dos moradores não só daquela localidade como também do Chapéu Mangueira, que fica ao lado. Adorava aquele ambiente. Aliás, por todas as favelas que passei. 

Certa vez, no ano de 1998, o agente comunitário trouxe uma moça para atendimento que pretendia divorciar-se. Sem filhos, com bens móveis e uma casa – posse, óbvio – no próprio morro. Alegava que o marido adorava curtir a vida nos bares e nos bailes, que a traía e que ela havia cansado do marido-mulherengo. 

Na minha atuação como advogada, trouxe a experiência do meu primeiro estágio de sempre buscar, a composição amistosa. Dessa forma, marcada a primeira sessão, houve séria resistência do marido ao divórcio. E assim foram nas demais. 

A mulher, impaciente, retrucava que via uma situação muito cômoda para o esposo que saía para trabalhar e de lá ia para os bares e quando voltava tinha comida pronta, roupa lavada e casa arrumada; que o mesmo não possuía compromisso com nada; que ela trabalhava tanto quanto ele, que realizava todos os afazeres domésticos e que ainda tinha que suportar as traições. 

Com a rigidez do marido, ajuizou-se o divórcio litigioso perante o Poder Judiciário da Comarca do Rio de Janeiro. O processo tramitou normalmente até o dia designado para a audiência de conciliação, instrução e julgamento. 

Momentos antes da audiência, os dois – autora e réu – surgem no final do corredor das Varas de Família do Fórum da Capital, vindo em minha direção em uma animada conversa. Chegaram rindo, felizes. 

Naquele instante pensei: “acho que vou fazer papel de idiota, o Promotor de Justiça também e o juiz idem. Mas… tudo em nome do amor, até mesmo a reconciliação na hora da audiência de divórcio. 

Não aguentei! Tive que perguntar! “Já que estamos aqui, vamos ter divórcio ou vocês reataram a relação?” Fiquei estupefata com a resposta da autora: “Nada disso! Só saio daqui divorciada!”. Não entendi nada… 

Feito o pregão, lá fomos nós. A audiência foi tão rápida que mal deu tempo de abrir a pasta e pegar a caneta. Toda a intransigência do marido, tinha acabado. 

Feita a conciliação e o casamento foi aniquilado em pouquíssimos minutos. Mesmo sem entender, estava extasiada com a alegria dos ex-casal. 

Quando saímos da sala de audiência, eles entrelaçaram as mãos e me convidaram para tomar chopp para comemorar o divórcio! Agradeci, mas ia para a faculdade dar aula. Uma pena, porque queria ir! Nunca tinha visto aquilo. 

Antes de irem, falei: “Estou achando que daqui a pouco serei chamada para um casamento.” Eles riram e a mulher respondeu: Jamais casarei novamente! E não é que não casou até hoje? 

Fiquei sabendo que o chopp foi animado. Todos felizes. Sempre tenho notícias do casal de namorados que se tornou. 

Fiquei sabendo que quando o homem quer levar as coisas para dormir na casa da mulher, ela o expulsa e lembra que combinaram que só dormem juntos eventualmente, justamente para não justificar levar nada. Pouco se encontram 

em casa, marcando nos bares e nos bailes. Dançam, bebem, se divertem, se respeitam e são felizes. Sem papel, sem certidão de casamento. 

Quando o homem começa com a ideia de infidelidade, a primeira coisa que ouve é que a mulher é sua namorada e que não são obrigados a ficar juntos. E terminam o namoro. 

Certa vez, soube que a mulher após saber da infidelidade do namorado, arrumou outra pessoa. Deu um rolo… E assim vão vivendo. Dizem estar muito mais felizes agora do que na época de casados. Um caso que a certidão de casamento atrapalhou a relação conjugal. E que seja eterno enquanto dure. E, no caso, sem papel.

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